A advocacia contemporânea opera sob a lógica da gestão de ativos e passivos. O tempo em que o parecer jurídico se limitava à análise da norma deu lugar a um modelo que agora é de consultoria focado em resultados econômicos e mitigação de perdas.
O equilíbrio entre o risco da demanda, o custo do processo e a expectativa do cliente é que define a qualidade da entrega profissional.
Isso porque, em um sistema de alta rotatividade processual e decisões rápidas, a falha em calcular uma dessas variáveis compromete a estratégia e a saúde financeira de quem busca o Judiciário.
Hoje, a decisão jurídica assemelha-se a um cálculo de viabilidade de investimento, onde o direito é a base, mas o indicador de sucesso se dá através do desfecho financeiro.
O que envolve a tomada de decisão jurídica na advocacia
A decisão jurídica consiste na escolha de um caminho técnico entre múltiplas alternativas para a solução de um conflito.
Esse processo exige a integração de três pilares: o ordenamento jurídico, os fatos apresentados e os objetivos do cliente.
Com base nisso, o profissional deve isolar as variáveis do caso para identificar a norma aplicável e o entendimento atual dos tribunais superiores. Uma análise focada na substância do direito e na viabilidade formal da demanda judicial ou extrajudicial.
O advogado deve verificar a existência de prazos de prescrição, decadência ou falhas processuais que impedem o debate sobre o mérito.
Já no plano consultivo, a decisão deve priorizar a redação de cláusulas que evitam interpretações dúbias em contratos de longa duração.
O ambiente de decisão inclui o estudo do comportamento de magistrados e de turmas julgadoras específicas para cada matéria.
Além disso, a estratégia deve abranger a definição entre o litígio judicial e os métodos de solução consensual, como a mediação e a arbitragem.
E nesse contexto, a decisão jurídica se vale de dados para determinar se o custo de uma ação compensa o benefício pretendido no longo prazo.
Ou seja, o advogado é um filtro técnico que traduz a complexidade legal em opções práticas para quem busca seus serviços.
Como avaliar riscos na tomada de decisão jurídica
A avaliação de riscos exige a categorização das chances de perda em escalas de probabilidade: remota, possível ou provável.
Essa classificação baliza o provisionamento financeiro em balanços de empresas e evita surpresas no encerramento do processo.
O risco jurídico também não se limita à derrota na sentença final: ele abrange a possibilidade de mudança no entendimento consolidado dos tribunais, fenômeno conhecido como overruling, ou “superação de precedente”, no bom português.
E para uma avaliação mais precisa, o profissional deve utilizar matrizes que cruzam a probabilidade de ocorrência com o impacto financeiro da disputa.
Em resumo, um processo com baixa chance de vitória, mas com valor de causa vultoso, requer cautela maior do que uma demanda com alta probabilidade de êxito e baixo valor econômico.
Outro ponto importante é a solvência da parte contrária, já que muitas vezes é ela quem garante a efetividade da decisão. Uma vitória judicial sem bens para a execução da sentença resulta em prejuízo para o cliente.
Fatores externos também compõem o quadro de riscos: alterações na legislação, crises econômicas setoriais e instabilidade política influenciam o resultado final de uma disputa legal.
A cada ação potencial, o advogado deve avaliar a robustez das provas, como documentos, perícias e testemunhos, para determinar a força da tese no contraditório.
Sem um conjunto probatório sólido, o risco de improcedência aumenta, sem relação direta com o mérito da questão.
Mas um dos pontos de maior atenção de uma gestão de risco é a possibilidade de condenação em honorários de sucumbência e multas por litigância. Um cenário em que ganhos mensuráveis podem se tornar prejuízos consideráveis.
Custos processuais e impacto na decisão jurídica
O custo de uma disputa jurídica ultrapassa o valor das taxas judiciárias iniciais. Ele engloba honorários contratuais, honorários de sucumbência, gastos com peritos, assistentes técnicos e até despesas de deslocamento.
Outro custo financeiro está ligado ao tempo de tramitação, já que o capital imobilizado no processo sofre os efeitos da inflação e deixa de render em outras frentes de investimento ou no fluxo de caixa.
Além disso, o impacto da decisão jurídica deve considerar o custo de oportunidade: manter um processo ativo por longo período pode custar mais para uma empresa do que um acordo imediato com redução de valores.
O advogado calcula o Valor Presente Líquido (VPL) das expectativas de ganho para oferecer uma visão clara sobre o benefício econômico da ação.
Depósitos para recursos e garantias bancárias também consomem recursos e devem entrar no cálculo de viabilidade da continuidade do litígio.
Outra etapa que permeia a análise é a etapa de execução e a busca por bens, pois o esforço para localizar ativos e garantir o recebimento do crédito demanda tempo e recursos adicionais de investigação.
Erros comuns na tomada de decisão jurídica com clientes
O erro mais comum está relacionado à manutenção de um otimismo sem base técnica sobre o resultado da causa.
Prometer vitória em um sistema judicial com múltiplas instâncias gera expectativas sem base e compromete a confiança no trabalho.
E a ausência de transparência sobre os riscos de cada etapa impede que o cliente tome decisões de negócios com fundamentação e segurança. Além disso, a falha na gestão de expectativa resulta em frustração mesmo em casos de sucesso parcial.
Outra falha é a falta de comunicação sobre a evolução dos custos ao longo do tempo. Com base nessa falha, o cliente ignora que tribunais superiores podem alterar decisões favoráveis e que o fim da disputa pode levar anos.
Ademais, o advogado incorre em erro ao não explicar o impacto de juros, correção monetária e honorários em caso de derrota. E ao omitir esses detalhes distorce a percepção sobre o custo-benefício da demanda judicial e afeta o planejamento financeiro do assistido.
A análise técnica isolada da realidade econômica do cliente também prejudica o resultado final. Isso porque uma estratégia com perfeição teórica pode ser desastrosa se exigir investimento superior à capacidade financeira de quem paga as custas.
Ignorar o perfil de risco do cliente leva a escolhas que não se alinham aos interesses de longo prazo da parte. O foco deve ser sempre a entrega de soluções que resolvam o conflito com o menor desgaste de recursos e tempo.
Por fim,a falha na coleta de provas logo no início da lide compromete a execução da estratégia definida.
Assim, o sucesso na tomada de decisão jurídica depende da capacidade de antecipar cenários adversos e apresentar alternativas que preservem o patrimônio e os direitos.
Integrar o saber jurídico e a visão pragmática de custos e riscos é, portanto, segundo especialistas, a base da advocacia moderna.
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